Mensagens de Emmanuel. Valoriza os amigos. Respeita os adversários.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Paciência e Nós




Quando as dificuldades atingem o apogeu, induzindo os companheiros mais valorosos a desertarem da luta pelo estabelecimento das boas obras, e prossegues sob o peso da responsabilidade que elas acarretam, na convicção de que não nos cabe descrer da vitória final...

Quando os problemas se multiplicam na estrada, pela invigilância dos próprios amigos, e te manténs, sem revolta, nas realizações edificantes a que te consagras...

Quando a injúria te espanca o nome, procurando desmantelar-te o trabalho, e continuas fiel às obrigações que abraçaste, sem atrasar o serviço com justificações ociosas...

Quando tentações e perturbações te ameaçam as horas, tumultuando-te os passos, e caminhas à frente, sem reclamações e sem queixas...

Quando te é lícito largar aos ombros de outrem a carga de atribuições sacrificiais que te assinala a existência, e não te afastas do serviço a fazer, entendendo que nenhum esforço é demais em favor do próximo...

Quando podes censurar e não censuras, exigir e não exiges...

Então, terás levantado a fortaleza da paciência no reino da própria alma.

Nem sempre passividade significa resignação construtiva.

Raramente pode alguém demonstrar confor-midade, quando se encontre sob os constrangimentos da provação.

Paciência, em verdade, é perseverar na edifi-cação do bem, a despeito das arremetidas do mal, e pros-seguir corajosamente cooperando com ela e junto dela, quando nos seja mais fácil desistir.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Instrução


Já se disse que duas asas conduzirão o espírito humano à presença de Deus.
Uma chama-se Amor, a outra, Sabedoria.
Pelo amor, que, acima de tudo, é serviço aos semelhantes, a criatura se ilumina e aformoseia por dentro, emitindo, em favor dos outros, o reflexo de suas próprias virtudes; e, pela sabedoria, que começa na aquisição do conhecimento, recolhe a influência dos vanguardeiros do progresso, que lhe 
comunicam os reflexos da própria grandeza, impelindo-a para o Alto.

Através do amor valorizamo-nos para a vida.
Através da sabedoria somos pela vida valorizados.
Daí o imperativo de marcharem juntas a inteligência e a bondade.
Bondade que ignora é assim como o poço amigo em plena sombra, a dessedentar o viajor sem ensinar-lhe o caminho.
Inteligência que não ama pode ser comparada a valioso poste de aviso, que traça ao peregrino informes de rumo certo, deixando-o sucumbir ao tormento da sede.
Todos temos necessidade de instrução e de amor. 
Estudar e servir são rotas inevitáveis na obra de elevação.
Toda a cultura intelectual é formada em cadeia de gradativa expansão.
As civilizações sucedem-se, ininterruptas, ao influxo da herança mental.
A arte, na palavra ou na música, no buril ou no pincel, evolui e se aprimora, por intermédio da repercussão a exprimir-se no trabalho dos cultivadores do belo, que se inspiram uns nos outros.
A escola é um centro de indução espiritual, onde os mestres de hoje continuam a tarefa dos instrutores de ontem.
O livro representa vigoroso ímã de força atrativa, plasmando as emoções e concepções de que nascem os grandes movimentos da Humanidade, em todos os setores da religião e da ciência, da opinião e da técnica, do pensamento e do trabalho. Por esse dínamo de energia criadora, encontramos os mais adiantados serviços de telementação, porqüanto, a imensas distâncias, no espaço e no tempo, incorporamos as idéias dos espíritos superiores que passaram por nós, há séculos.

Sócrates reflete-se nas páginas dos discípulos que lhe comungavam a intimidade, e, ainda hoje, consumimos os elevados pensamentos de que foi ele o portador.
Retrata-se Jesus nos livros dos apóstolos que lhe dilataram a obra, e temos no Evangelho um espelho cristalino em que o Mestre se reproduz, por divina reflexão, orientando a conduta humana para a construção do Reino de Deus entre as criaturas.

Conhecer é patrocinar a libertação de nós mesmos, colocando-nos a caminho de novos horizontes na vida.
Corre-nos, pois, o dever de estudar sempre, escolhendo o melhor para que as nossas idéias e exemplos reflitam as idéias e os exemplos dos paladinos da luz.

Lição 4 do Livro Pensamento e Vida
Autor Emmanuel
Psicografia Chico Xavier

Cooperação



Para que alguém dirija com êxito e eficiência uma empresa importante, não lhe basta a nomeação para o encargo.
Exige-se-lhe um conjunto de qualidades superiores para que a obra se consolide e prospere. Não apenas autoridade, mas direção com discernimento.
Não só teoria e cultura, mas virtude e juízo claro de proporções.
Dilatados recursos nas mãos, a serviço de uma cabeça sem rumo, constituem tesouros nos braços da insensatez, assim como a riqueza sem orientação é navio à matroca.
Quem governa emitirá forças de justiça e bondade, trabalho e disciplina, para atingir os objetivos da tarefa em que foi situado.
Quando o poder é intemperante, sofre o povo a intranquilidade e a mazorca, e, quando a inteligência não possui o timão do caráter sadio, espalha, em torno, a miséria e a crueldade.
Daí, conhecermos tantos tiranos nimbados de grandeza mental e tantos gênios de requintada sensibilidade, mas atolados no vício.
No mundo íntimo, a vontade é o capitão que não pode relaxar no mister que lhe é devido.
E assim como o administrador de um serviço reclama a ajuda de assessores corretos, a vontade não prescindirá da ponderação e da lógica, conselheiros respeitáveis na chefia das decisões.
No entanto, urge que o senso de cooperação seja chamado a sustentar-lhe os impulsos.
Nas linhas da atividade terrestre, quem orienta com segurança não ignora a hierarquia natural que vige na coexistência de todos os valores indispensáveis à vida.
Na confecção do agasalho comum, o fio contará com o apoio da máquina, a máquina esperará pela competência do operário, o operário edificar-se-á no técnico que lhe supervisiona o trabalho, o técnico arrimar-se-á na diretoria da fábrica e a diretoria da fábrica equilibrar-se-á no movimento da indústria, dele extraindo o combustível econômico necessário à alimentação do núcleo de serviço que lhe obedece aos ditames.
Observamos, assim, que no Estado Individual a vontade, para satisfazer à governança que lhe compete, sem colapsos de equilíbrio, precisa socorrer-se da colaboração a fim de que se lhe clareie a atividade. 
A cooperação espontânea é o supremo ingrediente da ordem.
Da Glória Divina às balizas subatômicas, o Universo pode ser definido como sendo uma cadeia de vidas que se entrosam na Grande Vida.
Cooperação significa obediência construtiva aos impositivos da frente e socorro implícito às privações da retaguarda.
Quem ajuda é ajudado, encontrando, em silêncio, a mais segura fórmula de ajuste aos processos da evolução.

Emmanuel
Francisco Cândido Xavier

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Jesus

Nossa evolução espiritual e moral é muito pequena para definir a figura de Jesus. E nosso vocabulário muito pobre para descrever a grandeza desse espirito.

Lendo e relendo o Livro "Há Dois Mil Anos" anotei esse trecho:

"O que mais me assombrava - dizia Públio Lentulus, impressionado - é que Jesus não era, que se soubesse, um doutor da Lei ou sacerdote formado pelas escolas humanas. 
Sua palavra, entretanto, estava como que ungida de uma graça divina. 
O olhar sereno e indefinível penetrava o fundo da alma e o sorriso generoso tinha a complacência de quem, possuindo toda a verdade, sabia compreender e perdoar os erros humanos. 
Seus ensinos, diariamente meditados por mim, nestes últimos anos, são revolucionários e novos, pois arrasam todos os preconceitos de raça e de família, unindo as almas num grande amplexo espiritual de fraternidade e tolerância. 
A filosofia humana jamais nos disse que os aflitos e pacíficos são bem-aventurados no céu; entretanto, com as suas lições renovadoras, modificamos o conceito de virtude, que, para o Deus soberano e misericordioso das Alturas, não está no homem mais rico e poderoso do mundo, mas no mais justo e mais puro, embora humilde e pobre".

*****

Esse, é o JESUS de quem tanto falamos, muitas das vezes por hábito. E muitos até usam o seu NOME para engrandecimento pessoal, e até para agredir e defender interesses.
Ainda hoje somos aquelas mesmas pessoas que o apedrejaram e pregaram na cruz porque somos incapazes de um gesto de piedade. Somos piedosos com quem comunga os mesmos interesses, qual o mérito que existe nisso?
Jesus é simbolo de amor, perdão, humildade, solidariedade. 
É a solução perfeita para resolvermos todas as angustias, principalmente as que vivenciamos nos dias de hoje.
Somos os errantes nos caminhos da vida. A meta é chegar lá. Só não sabemos quando.
Mesmo assim sabemos que nos assiste e nos dará forças e coragem para perdoar.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Nos derradeiros minutos de Pompeia .FIM

Há dois mil anos
Romance de Emmanuel




Em radiosa manhã do ano de 79, toda a Pompeia despertou em rumores festivos.

A cidade havia recebido a visita de um ilustre questor do Império e, naquele dia, todas as ruas se movimentavam em alacridade barulhenta, aguardando-se, para breves horas, as festas deslumbrantes do anfiteatro, com que a administração desejava celebrar o evento, em meio da alegria geral.

Para o velho senador Públio Lentulus, o acontecimento se revestia de importância especial, porquanto o distinto hóspede de Pompeia lhe trazia significativa mensagem, bem como honrosas deferências de Tito Flavius Vespasiano, então imperador, na sucessão de seu pai.

Ainda mais.

No séquito do questor ilustre vinha, igualmente, Plínio Severus, em plenitude de maturidade, totalmente regenerado e julgando-se agora redimido no conceito da esposa e daquele que seu coração considerava como pai.

Nesse dia, enquanto Ana comandava, verbalmente, as atividades domésticas nos preparativos da recepção, mobilizando escravos e servos numerosos, Públio e filha se abraçavam comovidos, em face da surpresa que o destino lhes reservara, embora tardiamente. Avisados por mensageiros da caravana de patrícios ilustres, davam larga às emoções mais gratas do espírito, na doce perspectiva de acolherem o filho pródigo, tantos anos distante de seus braços amigos.

Antes do meio-dia, um deslumbramento de viaturas, de cavalos ajaezados e de joias faiscantes sobre vestiduras reluzentes se deparava às portas da vila plácida e graciosa, provocando a admiração e o interesse curioso das vizinhanças. E, em seguida, foi um turbilhão de abraços, carinhos, palavras confortadoras e generosas.

Quase todos os patrícios, em excursão pela Campânia, conheciam o senador e sua família, representando esse acontecimento um suave encontro de corações.

Públio Lentulus abraçou Plínio, demoradamente, como se fizesse a um filho bem-amado, que voltasse de longe e cuja ausência houvera sido excessivamente prolongada. Experimentava no íntimo impulsos de extravasão de afeto, que o seu coração dominou, para não provocar a admiração injustificada dos circunstantes.

- Meu pai, meu pai! - disse o filho de FIamínio em tom discreto e quase imperceptível aos seus ouvidos, quando lhe beijava a fronte encanecida - já me perdoastes?

Ó filho, como tardaste tanto?!... Quero-te como sempre e que o céu te abençoe!... - respondeu o velho cego, emocionado.

Daí a instante, após o doce encontro de Plínio e sua mulher, exclamou o questor em meio do silêncio geral:

- Senador, honro-me em trazer-vos preciosa lembrança de César, acompanhada de uma mensagem de reconhecimento da alta administração política do Império, um dos mais fortes e mais justos motivos de minha permanência em Pompeia, e incumbo o nosso amigo Plínio Severus de vos entregar, neste momento, estas relíquias que representam uma das mais significativas homenagens do Império ao esforço de um dos seus mais dedicados servidores!...

Públio Lentulus sentia bem a suprema emoção daquela hora.

A homenagem do imperador, a carinhosa presença dos amigos, a volta do genro aos seus braços paternos, representavam para o seu coração uma alegria entontecedora.

Seus olhos, entretanto, nada podiam ver. Do seio da sua noite, ouvia aqueles apelos generosos, como um desterrado da luz, de quem se exumassem as recordações mais queridas e mais doces.

- Amigos - disse, enxugando uma lágrima furtiva nos olhos apagados -, tudo isso é para mim a maior recompensa de uma vida inteira.

Nosso imperador é um espírito excessivamente generoso, porque a verdade é que nada fiz para merecer o reconhecimento da pátria.

Minh'alma, todavia, exulta convosco, meus patrícios, porque a nossa reunião nesta casa é símbolo de união e trabalho, nos elevados encargos do Império!...

Nesse instante, contudo, alguém lhe tomava as mãos encarquilhadas, levando-as aos lábios úmidos, deixando, porém, nas pequeninas conchas das rugas, duas lágrimas ardentes.

Plínio Severus, num gesto espontâneo, ajoelhara-se e, osculando-lhe as mãos, dava expansão ao seu afeto e reconhecimento, ao mesmo tempo que lhe fazia entrega da mensagem imperial que o velho senador não mais podia ler.

Públio Lentulus chorava, sem poder pronunciar uma única palavra, tal a emoção que lhe oprimia o íntimo, enquanto os circunstantes lhe acompanhavam as atitudes com os olhos rociados de pranto.

Nesse ínterim, o filho de Flamínio não mais se conteve e, consagrando a sua regeneração espiritual, exclamava enternecido:

- Meu querido pai, não choreis, se aqui nos achamos todos para compartilhar vossa alegria! Diante de todos os nossos amigos romanos, com a homenagem do Império, eu vos entrego o meu coração regenerado para sempre!... Se estais agora cego, meu pai, não o estais pelo espírito que sempre procurou dissipar as sombras e remover tropeços do nosso caminho!... Continuareis guiando os meus, ou, melhor, os nossos passos, com as vossas antigas tradições de sinceridade e de esforço, na retidão do proceder!... Voltareis comigo para Roma e, junto de vosso filho reabilitado, organizareis novamente o palácio do Aventino... Serei, então, para todo o sempre, uma sentinela do vosso espírito, para vos amar e proteger!... Tomarei minha esposa a meu inteiro cuidado e, dia a dia, tecerei para nós três uma auréola de venturas novas e indefiníveis, com os milagres da minha afeição imorredoura! Em nossa casa do Aventino florescerá uma alegria nova, porque hei-de prover todas as vossas horas com o amor grande e santo de quem, conhecendo todas as duras experiências da vida, sabe agora valorizar seus próprios tesouros!...

O velho senador, alquebrado pelos anos e pelos mais rudes sofrimentos, conservava-se de pé, acariciando os cabelos do genro, igualmente prateados pelos invernos da vida, enquanto pesadas lágrimas rompiam a muralha da sua noite para enternecer o coração de todos, numa angustiosa e indefinível emotividade. Flávia Lentúlia chorava, igualmente, dominada por íntimas sensações de felicidade, ao cabo de tão longas e desalentadas esperanças!... Alguns amigos desejavam quebrar a solenidade dolorosa daquele quadro imprevisto, mas o próprio questor, que chefiava a caravana de patrícios ilustres, se ocultara num recanto, sensibilizado até às lágrimas.

Públio Lentulus, contudo, compreendendo que somente ele próprio poderia modificar as disposições daquela paisagem sentimental, reagiu às emoções, exclamando:

- Levanta-te, meu filho!... Nada fiz para me agradeceres de joelhos...

Porque me falas deste modo?... Voltaremos para Roma, sim, em breves dias, pois todos os teus desejos são os nossos... regressaremos à nossa casa do Aventino, onde, juntos, viveremos para relembrar o pretérito e venerar a memória dos nossos antepassados!

E, depois de uma pausa, continuou, em exclamações quase otimistas:

- Meus amigos, sinto-me comovido e grato pela gentileza e afeto de todos vós! Mas, que é isso? Todos silenciosos? Lembrai-vos de que não vos vejo senão através das palavras. E a festa de hoje?...

As exclamações do senador quebraram o silêncio geral, voltando-se aos intensos ruídos de minutos antes. A torrente das palestras casava-se ao tinir das taças de vinho, em seus pesados estilos da época.

Enquanto as visitas se reuniam no triclínio espaçoso para libações ligeiras, Plínio Severus e a esposa trocavam confidências ternas, ora sobre os projetos em perspectiva para os anos que ainda lhes restavam no mundo, ora quanto às recordações dos dias lentos e amargurados do passado distante.

Insistentes chamados, porém, requeriam a presença do questor e comitiva, no local dos festejos.

O circo fora preparado a rigor e não se perdera nenhuma oportunidade para a realização das menores minudências próprias das grandes festividades romanas.

E ao mesmo tempo que todos se despediam do senador e de sua filha, num deslumbramento de felicidade mundana, Plínio Severus dirigia-se a Públio nestes termos, depois de abraçar ternamente a companheira:

- Meu pai, levado pelas circunstâncias, sou compelido a acompanhar o questor nas festividades populares, mas estarei de regresso em breves horas, para ficar convosco um mês, de modo a tratarmos do nosso regresso a Roma.

- Muito bem, meu filho - respondia o velho senador, sumamente confortado -, acompanha os nossos amigos e representa-me junto das autoridades. Dize a todos da minha emoção e do meu agradecimento sincero.

A sós novamente, o senador sentiu que aquelas comoções cariciosas e alegres eram, talvez, as últimas da sua vida. No velho peito, o coração batia-lhe descompassado, como se pesada nuvem de pensamentos tristes o envolvesse. Sim, a volta de Plínio aos seus braços paternos era a alegria suprema da sua velhice desalentada. Sabia, agora, que a filha poderia contar com o esposo, nas estradas do seu tormentoso destino, e que a ele, Públio, somente competia aguardar a morte, resignado. Ponderando as palavras afetuosas do filho de FIamínio e os seus apelos ao passado remoto, Públio Lentulus considerou, intimamente, que era muito tarde para regressar ao Aventino e que a volta a Roma apenas devia significar, para o seu espírito precito, o símbolo da sepultura.

Em pleno espetáculo, Plínio Severus, já no outono da vida, arquitetava os planos de futuro. Procuraria resgatar todas as faltas antigas, perante os seus parentes afetuosos e queridos; assumiria a direção de todos os negócios do velho pai pelo coração, aliviando-o de todas as angustiosas preocupações da vida material.

De vez em quando, os aplausos da multidão lhe interrompiam os devaneios. A maioria da população de Pompeia ali estava em plena festa, ovacionando os triunfadores. Gente de toda a redondeza e muito particularmente de Herculanum, acorrera pressurosa ao divertimento predileto daquelas épocas recuadas. De permeio com os atletas e gladiadores, estavam os músicos, os cantores e os dançarinos.

Tudo era um farfalhar de sedas, um delicioso chocalhar de alegrias ruidosas, ao som de flautas e alaúdes.

Em dado instante, porém, a atenção geral foi solicitada por um fato estranho e incompreensível. Do cimo do Vesúvio elevava-se grossa pirâmide de fumo, sem que ninguém atinasse com a causa do fenômeno insólito.

Continuavam os jogos animadamente, mas agora, no seio da coluna fumarenta que se elevava em caprichosos rolos para o alto, surgiam impressionantes labaredas...

Plínio Severus, como todos os presentes, se surpreendia com o fenômeno estranho e inexplicável.

Em minutos breves, no entanto, estabeleciam-se no anfiteatro a confusão e o terror.

Em meio da perturbação geral e imprevista, o filho de Flamínio ainda teve tempo de se aproximar do questor, então rodeado dos seus familiares que residiam na cidade, o qual lhe falou com otimismo, embora não conseguisse dissimular de todo as Íntimas inquietações:

- Meu amigo, tenhamos calma! Pelas barbas de Júpiter!... Então, por onde andarão a nossa coragem e a nossa fibra?

Mas, em breves instantes a terra lhes tremia sob os pés, em vibrações desconhecidas e sinistras. Algumas colunas tombavam ao solo, pesadamente, enquanto numerosas estátuas rolavam dos nichos improvisados, recamados de ouro e pedrarias.

Abraçando-se, então, à filha e cercado de numerosas senhoras, o questor disse altamente preocupado:

- Plínio, demandemos as galeras, sem demora!...

Mas, o oficial romano não mais ouviu os apelos. Ansiosamente, atirou-se à faina de romper a multidão, que desejava retirar-se em massa do circo, motivando o esmagamento de crianças e pessoas mais idosas.

Ao cabo de sobre-humano esforço, conseguiu alcançar a rua, mas todos os lugares estavam tomados por gente que saía de casa, desarvorada, aos gritos de "Fogo, Fogo!... O Vesúvio..."

Plínio verificou que todas as vias públicas estavam repletas de gente desesperada, de viaturas e de animais espavoridos.

Com enorme dificuldade, vencia todos os obstáculos, mas o Vesúvio lançava agora, para o céu, uma fogueira indescritível e imensa, como se a própria Terra houvera incendiado as entranhas mais profundas.

Uma chuva de cinza, a princípio quase imperceptível, começou a cair, enquanto o solo continuava a tremer com ruídos surdos, aterradores.

De instante a instante, ouvia-se o estrondo pavoroso de colunas derribadas ou de edifícios desmoronados pelos abalos sísmicos, ao mesmo tempo que o fumo do vulcão ia eclipsando a confortadora claridade solar.

Mergulhada em penumbra espessa e tomada de terror indizível, Pompeia assistia aos seus últimos instantes, numa aflição desesperada...

Na vila de Lentulus, os escravos perceberam imediatamente o perigo próximo. Nos primeiros momentos, os cavalos relinchavam estranhamente e as aves inquietas fugiam em desespero.

Após a queda das primeiras colunas que sustentavam o edifício, todos os servos do senador abandonaram precipitadamente os postos, desejosos de conservar noutra parte os bens preciosos da vida. Somente Ana ficara junto dos amos, dando-lhes conhecimento dos horrores do ambiente.

Os três, numa justificada inquietude, escutaram o rumor horrível da inolvidável catástrofe do Império. A própria vila estava já meio destruída, penetrando as cinzas pelos desvãos abertos pela queda dos telhados e começando a sua obra de lenta sufocação. Ansiavam todos pelo regresso imediato de Plínio, a fim de resolverem as providências a adotar, mas o velho senador, cujo coração não se iludia nos seus amargurados pressentimentos, exclamou em tom quase resignado:

- Ana, traze a cruz de Simeão e vamos à prece que te foi ensinada pelos discípulos do Messias!... Diz-me o coração que é chegado o fim da nossa romagem pela Terra!

Enquanto a serva buscava apressadamente a relíquia do ancião de Samaria, afrontando o perigo das paredes oscilantes, Públio Lentulus ouvia o surdo rumor da terra dilacerada e os gritos apavorantes e sinistros do povo, misturados ao barulho tremendo do vulcão que, transformado em fornalha imensa e indescritível, enchia toda a cidade de cinzas e lavas ferventes. Lembrou-se, então, o senador, das afirmativas do Cristo nos dias idos da Galileia, quando lhe asseverava que toda a grandeza romana era bem miserável e num minuto breve poderia o Império ser reduzido a um punhado de pó. O coração batia-lhe descompassado naquele minuto extremo, mas a velha serva havia regressado e ajoelhara-se, serena, guardando nas mãos a lembrança de Simeão e de Lívia, orando em voz comovedora e profunda:

"Pai Nosso, que estais no céu... santificado seja o vosso nome...venha a nós o vosso reino... seja feita a vossa vontade... assim na Terra como nos céus..."

Nesse instante, porém, a voz da serva emudeceu subitamente, enquanto seu corpo rolava sob novos escombros, sentindo-se ela amparada, espiritualmente, pelo venerável samaritano que a conduziu, imediatamente, às mais elevadas esferas espirituais, tal a natureza do seu coração iluminado nas dores e testemunhos mais angustiosos do aprendizado terrestre.

- Ana!... Ana!... - exclamavam Públio e Flávia, soluçantes, sentindo ambos pela primeira vez o infortúnio do insulamento supremo, sem uma luz e sem um guia, em pleno desamparo!

Alguém, contudo, rompera todos os destroços e chegava, rápido, até àquela câmara interior, e, abraçando Públio e sua filha gritava em voz opressa: - "Flávia! meu pai! aqui estou..."

Plínio chegava, afinal, para o instante derradeiro. Flávia Lentúlia apertou-o carinhosamente nos braços, enquanto o velho senador semi asfixiado tomava as mãos do filho, abraçando-se os três num amplexo derradeiro.

Flávia e Plínio quiseram falar, mas grossa camada de cinzas penetrava o interior, pelas fendas enormes da vila meio destruída...

Mais um estremeção do solo e as colunas que ainda restavam de pé se abateram sobre os três, roubando-lhes as últimas energias e fazendo-os cair assim, enlaçados para sempre, sob um montão de escombros...

Naquelas sombras espessas, todavia, pairavam criaturas aladas e leves, em atitudes de prece, ou confortando ativamente o coração abatido dos míseros condenados à destruição.

Sobre os três corpos soterrados permanecia a entidade radiosa de Lívia, junto de numerosos companheiros que cooperavam, com devotamento e precisão, nos serviços de desprendimento total dos moribundos.

Pousando as mãos luminosas e puras na fronte abatida do companheiro exausto e agonizante, Lívia elevou os olhos ao firmamento enegrecido e orou com a suavidade da sua fé e dos seus sentimentos diamantinos.

- Jesus, meigo e divino Mestre - esta hora angustiosa é bem um símbolo dos nossos erros e crimes, através de avatares tenebrosos; mas, vós, Senhor, sois toda a esperança, toda a sabedoria e toda a misericórdia!... Abençoai nossos espíritos neste momento ríspido e doloroso!... Suavizai os tormentos da alma gêmea da minha, concedendo-lhe neste instante o alvará da liberdade!... Aliviai, magnânimo Salvador do mundo, todas as suas magoas pungentes, suas desoladoras amarguras!...

Concedei-lhe repouso ao coração angustiado e dolorido, antes do seu novo regresso à trama escura das reencarnações no planeta do exílio e das lágrimas dolorosas... Ele já não é mais, Senhor, o vaidoso déspota de outrora, mas um coração inclinado ao bem e â piedade pregados pela vossa doutrina de amor e redenção; sob o peso das provações amargas e remissoras, seus pendores se espiritualizaram a caminho da vossa Verdade e da vossa Vida!...

E, enquanto Lívia orava, o senador abraçado aos filhos, já cadáveres, desferia o último gemido, com pesada lágrima a lhe cintilar nos olhos mortos...

Numerosas legiões de seres espirituais volitaram por vários dias, nos céus caliginosos e tristes de Pompeia.

Ao cabo de longas perturbações, Públio Lentulus e filhos despertaram, ali mesmo, sobre o túmulo nevoento da cidade morta.

Em vão o senador invocou a presença de Ana ou de algum outro servo, na penosa ilusão da vida material, persistindo em seu organismo psíquico as impressões da cegueira material, que representara o longo suplício dos seus anos derradeiros, na indumenta da carne.

Contudo, após as primeiras lamentações, ouviu uma voz que lhe dizia brandamente:

- Públio, meu amigo, não apeles mais para os recursos do planeta terreno, porque todos os teus poderes terminaram com os teus despojos, na face escura e triste da Terra! Apela para Deus Todo-Poderoso, cuja misericórdia e sabedoria nos são dadas pelo amor do seu Cordeiro, que é Jesus-Cristo!...

Públio Lentulus não chegou a lobrigar o interlocutor, mas identificou a voz de Flamínio Severus, desabafando, então, numa torrente de preces e de lágrimas fervorosas.

Embora as dedicações constantes de Lívia, havia já alguns dias que seu espírito se encontrava presa de pesadelos angustiosos, nos primeiros instantes da vida do Além, assistido, porém, continuamente por Flamínio e outros companheiros abnegados, que o aguardavam no plano espiritual.

Contudo, depois daquelas súplicas sinceras que lhe fluíam do mais recôndito do coração, sentiu que seu mundo interior se desanuviara...

Junto dos filhos queridos, recobrou a visão e reconheceu os entes amados, com lágrimas de amor e reconhecimento, nos pórticos do além túmulo.

Ali se conservavam numerosas personagens desta história, como Flamínio, Calpúrnia, Agripa, Pompílio Crasso, Emiliano Lucius e muitos outros; mas, em vão, os olhos angustiosos do ex-senador procuravam alguém na assembleia afetuosa e amiga.

Depois de todas as expansões de carinho e alegria dirigiu-se-lhe Flamínio, intencionalmente.

- Estranhas a ausência de Lívia - dizia ele com o seu olhar complacente e generoso -, mas não poderás vê-la, enquanto não conseguires despir, pela prece e pelos bons desejos, todas as impressões penosas e nocivas da Terra. Ela se tem conservado junto ao teu coração, em rogativas sinceras e fervorosas pelo teu reerguimento, mas o nosso grupo ainda é de espíritos muito apegados ao orbe, e esperávamos o regresso dos seus últimos componentes, ainda na Terra, para podermos, em conjunto, estabelecer novo roteiro às reencarnações vindouras.. Séculos de trabalho e de dor nos esperam na senda da redenção e do aperfeiçoamento, mas precisamos, antes de tudo, buscar a fortaleza precisa em Jesus, fonte de todo o amor e de toda a fé, para as elevadas realizações do nosso pensamento!..

Públio Lentulus chorava, tocado por emoções estranhas e indefiníveis.

- Meu amigo - continuou Flamínio, amoroso -, pede a Jesus, por todos nós, a misericórdia dessa claridade de um novo dia!...

Públio, então, ajoelhou-se e, banhado em lágrimas, concentrou o coração em Jesus numa rogativa ardente e silenciosa... Ali, na soledade da sua alma intrépida e sincera, apresentava ao Cordeiro de Deus o seu arrependimento, suas esperanças para o porvir, suas promessas de fé e de trabalho para os séculos porvindouros!...

Todos os presentes lhe acompanharam a oração, tomados de pranto e mergulhados em vibrações de consolação inefável.

Viram, então, rasgar-se um caminho luminoso e florido nos céus escuros e tristes da Campânia, e, por ele, como se descessem dos jardins fulgurantes do Paraíso, surgiram Lívia e Ana abraçadas, como se ainda ali enviasse Jesus um ensinamento simbólico àquelas almas prisioneiras da Terra, de modo a lhes revelar que, em qualquer posição, pode a alma encarnada buscar o seu reino de luz e de paz, de vida e de amor, tanto na túnica humilde do escravo, como na pomposa indumentária dos senhores.

O velho patrício contemplou a figura radiosa da companheira e, extasiado, fechou os olhos banhados no pranto da compunção e do arrependimento; mas, em breve, dois lábios de névoa pousavam-lhe na fronte, qual o leve roçar de um lírio divino. E, enquanto seu coração maravilhado se lavava nas lágrimas da alegria e do reconhecimento a Jesus, toda a caravana, ao impulso poderoso das preces fervorosas daquelas duas almas redimidas, elevava-se a esferas mais altas, para repouso e aprendizado, antes de novas etapas de regeneração e trabalhos purificadores, a lembrar um grupo maravilhoso de luminosas falenas do Infinito!...

FIM

Se lhe agradou a leitura deste livro, deverá conhecer a reencarnação de Publius, em "50 Anos Depois", outro romance do mesmo Autor.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Lembranças amargas - Segunda Parte IX

Há dois mil anos
Romance de Emmanuel


Logo após os penosos acontecimentos de 70 e de conformidade com os desejos de Flávia, o senador passou a residir na vivenda confortável que ele possuía em Pompeia, longe dos bulícios da Capital. 

Ali poderia entregar-se melhor às suas meditações.

Para lá transportara então, o velho político, todo o seu volumoso arquivo, bem como as lembranças mais carinhosas e mais importantes da sua vida. Dois libertos gregos, extremamente cultos, foram contratados para os trabalhos de escrita e leitura, e assim é que, no seu retiro, se mantinha ao corrente de todas as novidades políticas e literárias de Roma.

Nesses tempos recuados, quando o homem se encontrava ainda longe dos benefícios preciosos da invenção de Gutenberg, os manuscritos romanos eram raros e sumamente disputados pelas elites intelectuais da época. Uma casa editora dispunha, quase sempre, de uma centena de escravos calígrafos, inteligentes, que confeccionavam mais ou menos mil livros por ano.

Públio, além disso possuía em Roma sinceras e numerosas amizades ao seu serviço, recebendo em Pompeia todos os ecos dos acontecimentos da cidade que lhe absorvera as melhores energias da vida.

Amiudadamente, recebia também notícias de Plínio Severus, por intermédio de amigos desvelados, confortando-se com as informações sobre sua conduta, agora digna, porquanto, pelos méritos conquistados nas Gálias, fora transferido, depois de 73, para Roma, onde, pela correção do proceder, embora tardiamente, conquistara posição respeitável e brilhante, prosseguindo nas tradições da probidade paterna, nos cargos administrativos do Império.

Plínio, todavia, não mais voltara a procurar a esposa nem aquele que o destino o compelia a considerar como um pai dedicado e carinhoso, embora não ignorasse o supremo infortúnio dos seus familiares. No íntimo, o antigo oficial romano não desdenhava a ideia de regressar ao seio dos entes queridos; contudo, desejava fazê-lo em condições de dissipar todas as dúvidas quanto no considerável esforço próprio, de sua regeneração. Galgando postos de confiança na administração dos Flavianos, queria uma posição de maiores vantagens morais, de maneira a levar aos seus íntimos a certeza da sua reabilitação espiritual.

Corria o ano de 78, na placidez das paisagens formosas da Campânia. Enquanto Tibur representava uma estação de cura e descanso regenerador para os romanos mais ricos, Pompeia era bem a cidade dos romanos mais sadios e mais felizes. Em suas vias públicas encontravam-se, a cada passo, os mármores soberbos e o bom gosto das mais belas construções da capital aristocrática do Império. Em seus templos suntuosos, aglomeravam-se assembleias brilhantes, de patrícios educados e cultos, que se instalavam na linda cidade, povoada de cantores e poetas, ao pé do Vesúvio, e iluminada por  um céu de maravilhas, cheio de ridente sol ou bordado de estrelas cintilantes.

Públio Lentulus, agora, sobremaneira apreciava a palavra simples e convincente de Ana, que envelhecera ao lado de Flávia, qual bela figura de marfim antigo. Era de lhe ver o interesse, a comoção, a alegria ao ouvi-la sobre a excelência dos princípios cristãos, quando se entretinham em recordações da Judeia distante. 

Nessas amáveis palestras, entre os três, logo após o jantar, discutia-se a figura do Cristo e as sublimadas ilações da sua doutrina, conseguindo o senador, pela força das circunstâncias, meditar melhor os grandiosos postulados do Evangelho, ainda fragmentário e quase desconhecido, para ligar os princípios generosos e santos do Cristianismo à personalidade do seu divino fundador.

Longas horas ficavam ali, no terraço amplo, sob a luz branda das estrelas e usufruindo a carícia das brisas da noite, que eram como que bafejos de inspirações celestes, aquelas três criaturas, em cujas frontes se vincavam as experiências dos anos.

Por vezes, Flávia fazia um pouco de música, que lhe saía da harpa como vibrante gemido de dor e de saudade, alcançando o coração paterno mergulhado no abismo das reminiscências dolorosas.

É que a música dos cegos é sempre mais espiritualizada e mais pura, porque, na sua arte, fala a alma profundamente, sem as emoções dispersas dos sentidos materiais.

Uma noite, obedecendo ao hábito de muitos anos, vamos encontrar aquelas três criaturas no espaçoso terraço da vila de Pompeia, em doces rememorações.

Havia mais de sete anos que quase todas as palestras versavam, ali, sobre a personalidade do Messias e a excelsa pureza da sua doutrina, observada, antes de tudo, a precisa discrição, porquanto os adeptos do Cristianismo continuavam perseguidos, embora com menos crueldade.


Em todo caso, invariavelmente, a conversação era de enfermos e de velhos, sem provocar o interesse dos amigos mais moços e mais felizes.

Depois de algumas lembranças e comentários de Ana, a respeito da angustiosa tarde do Calvário, exclamava o velho senador em tom convencido:

- De mim para comigo, tenho a certeza de que Jesus ficará para sempre no mundo, como o mais elevado símbolo de consolação e fortaleza moral para todos os sofredores e para todos os tristes!...

Desde os primeiros dias de minha cegueira material procuro, intimamente, compreender-lhe a grandeza e não consigo apreender toda a extensão da sua excelsitude e dos seus ensinos.

Lembro-me, como se fosse ontem, do crepúsculo formoso em que o vi pela primeira vez, ao longo das margens do Tiberíades...

- Eu também - murmurou Ana - não consigo olvidar aquelas tardes deliciosas e claras em que todos os servos e sofredores de Cafarnaum nos reuníamos à margem do grande lago, esperando o suave enlevo das suas palavras.

E como se estivesse contemplando o desfile de suas recordações mais queridas, com os olhos da imaginação, a velha serva continuava:

- O Mestre apreciava a companhia de Simão e dos filhos de Zebedeu e, quase sempre, era em uma de suas barcas que ele vinha, solicito, atender às nossas rogativas...

- O que mais me assombrava - dizia Públio Lentulus, impressionado - é que Jesus não era, que se soubesse, um doutor da Lei ou sacerdote formado pelas escolas humanas. Sua palavra, entretanto, estava como que ungida de uma graça divina. O olhar sereno e indefinível penetrava o fundo da alma e o sorriso generoso tinha a complacência de quem, possuindo toda a verdade, sabia compreender e perdoar os erros humanos. Seus ensinos, diariamente meditados por mim, nestes últimos anos, são revolucionários e novos, pois arrasam todos os preconceitos de raça e de família, unindo as almas num grande amplexo espiritual de fraternidade e tolerância. A filosofia humana jamais nos disse que os aflitos e pacíficos são bem-aventurados no céu; entretanto, com as suas lições renovadoras, modificamos o conceito de virtude, que, para o Deus soberano e misericordioso das Alturas, não está no homem mais rico e poderoso do mundo, mas no mais justo e mais puro, embora humilde e pobre.

Sua palavra compassiva e carinhosa espalhou ensinamentos que somente hoje posso compreender, na sombra espessa e triste dos meus sofrimentos..

- Meu pai - perguntou Flávia Lentúlia, extremamente interessada na conversação -, chegastes a ver o profeta muitas vezes?...

- Não, filha. Antes do dia nefasto de sua morte infamante na cruz, somente o vi uma vez, ao tempo em que eras pequenina e doente. Isso bastou, contudo, para que eu recebesse, nas suas palavras sublimes, luminosas lições para toda a vida. Só hoje entendo as suas exortações amigas, compreendendo que a minha existência foi bem uma oportunidade perdida!... Aliás, já naquele tempo, sua profunda palavra me dizia que eu defrontava, no minuto do nosso encontro, o maravilhoso ensejo de todos os meus dias, acrescentando, na sua extraordinária benevolência, que eu poderia aproveitá-lo naquela época ou daí a milênios, sem que me fosse possível apreender o sentido simbólico de suas palavras...

- Todas as concessões de Jesus se esteavam na Verdade santificada e consoladora - acrescentou Ana, agora gozando de toda a intimidade com os seus senhores.

- Sim - exclamou Públio Lentulus, concentrado nas suas reminiscências -, minhas observações pessoais autorizam-me a crer da mesma forma.

Se eu tivesse aproveitado a exortação de Jesus naquele dia, talvez houvesse alijado mais de metade das provações amargas que a Terra me reserva... Se houvesse buscado compreender sua lição de amor e humildade, teria procurado André de Gioras, pessoalmente, reparando o mal que lhe havia feito, com a prisão do filho ignorante, demonstrando-lhe o meu interesse individual, sem confiar tão somente nos funcionários irresponsáveis que se encontravam a meu serviço... Guiado por esse interesse, teria encontrado Saul facilmente, pois Flamínio Severus seria, em Roma, o confidente dos meus desejos de reparação, evitando dessa maneira a dolorosa tragédia da minha vida paternal.

Se houvesse entendido bastante a sua caridade, na cura de minha filha, teria conhecido melhor o tesouro espiritual do coração de Lívia, vibrando com o seu espírito na mesma fé, ou caindo juntamente com ela na arena ignominiosa do circo, o que seria suave, em comparação com as lentas agonias do meu destino; teria sido menos vaidoso e mais humano, se lhe houvesse entendido a preceito a lição de fraternidade...

- Meu pai - exclamava, porém, a filha, de molde a confortar-lhe as agruras do coração -, se Jesus é a sabedoria e a verdade, de qualquer modo ele saberia compreender as razões da vossa atitude, sabendo que fostes forçado pelas circunstâncias a manter esse ou aquele princípio em vossa vida.

- Minha filha, nestes últimos anos - revidou Públio ponderadamente - tenho a presunção de haver chegado as mais seguras conclusões a respeito dos problemas da dor e do destino...

Acredito hoje, com a experiência própria que as atividades penosas do mundo me ofertaram, que nós contribuímos, sobretudo, para agravar ou atenuar os rigores da situação espiritual, nas tarefas desta vida.

Admitindo, agora, a existência de um Deus Todo-Poderoso, fonte de toda a misericórdia e todo o amor, creio que a Sua Lei é a do bem supremo para todas as criaturas. Esse código de solidariedade e de amor deve reger todos os seres e, dentro dos seus dispositivos divinos, a felicidade é o determinismo do céu para todas as almas. Toda vez que caímos ao longo do caminho, favorecendo o mal ou praticando-o, efetuamos uma intervenção indébita na Lei de Deus, com a nossa liberdade relativa, contraindo uma dívida com o peso dos infortúnios...

Não me referindo aos meus atos pessoais, que agravaram as minhas angustiosas dores íntimas, e considerando Jesus como medianeiro entre nós e Aquele a quem a sua profunda palavra chamava Pai-Nosso, fico hoje a pensar se não cometi um erro, forçando a sua misericórdia com a minha súplica paternal, a fim de que continuasses a viver neste mundo, para o nosso amor em família, quando eras pequenina!...

Flávia Lentúlia e Ana, que acompanhavam os raciocínios do senador, desde muitos anos, lhe seguiam as conclusões morais, cheias de surpresa, em face da facilidade íntima com que sabia aliar as lições penosas do seu destino aos princípios pregados pelo profeta Nazareno.

- Na verdade, meu pai - disse Flávia Lentúlia, depois de longa pausa - , tenho a impressão de que as forças divinas haviam deliberado arrebatar-me do mundo, considerando as dores penosas que me esperavam na estrada escabrosa do meu destino desventurado...

- Sim - ajuntou o senador, cortando-lhe a palavra -, ainda bem que me compreendeste. A vida e o sofrimento nos ensinam a entender melhor o plano das determinações de ordem divina.

Antigos iniciados das religiões misteriosas do Egito e da Índia acreditam que voltamos várias vezes à Terra, noutros corpos!...

Nesse instante, o velho patrício fez uma pausa.

Lembrou-se dos seus antigos sonhos, quando, em se vendo com a indumentária de Cônsul nos tempos de Catilina, infligia aos inimigos políticos o suplício da cegueira, a ferro incandescente, quando se chamava Públio Lentulus Sura.

Nos seus pensamentos caia como que uma torrente de ilações novas e sublimadas, como se fossem renovadoras inspirações da sabedoria divina.

Mas, depois de alguns instantes, como se o relógio da imaginação houvesse parado alguns minutos. para que o coração pudesse escutar o tropel das lembranças no deserto do seu mundo subjetivo, murmurava, confortado, na posse tardia do roteiro do seu amargurado destino:

- Hoje creio, minha filha, que, se as energias sábias do céu haviam decidido a tua morte, em pequenina - determinação essa que eu possivelmente contrariei com a minha súplica angustiosa de pai, descoberta em silêncio pelo Messias de Nazaré no recôndito do meu orgulhoso e infeliz coração - e que deverias ficar livre do cárcere que te prendia, de modo a te preparares melhor para a resignação, para a fortaleza e para os sofrimentos. Certamente, renascerias mais tarde e encontrarias as mesmas circunstâncias e os mesmos inimigos, mas terias um organismo mais forte para resistir aos embates penosos da existência terrestre.

Reconhecemos hoje, portanto, que há uma lei soberana e misericordiosa a que devemos obedecer, sem interferir no seu mecanismo feito de misericórdia e sabedoria...

Quanto a mim, que tive organismo resistente e fibra espiritual saturada de energia, sinto que, em outras vidas, procedi mal e cometi crimes nefandos.

Minha atual existência teria de ser um imenso rosário de infinitas amarguras, mas vejo tardiamente que, se houvesse ingressado no caminho do bem, teria resgatado um montão de pecados do pretérito obscuro e delituoso. Agora entendo a lição do Cristo como ensinamento imortal da humildade e do amor, da caridade e do perdão - caminhos seguros para todas as conquistas do espírito, longe dos círculos tenebrosos do sofrimento!

E lembrando o sonho que relatara a Flamínio, nos tempos idos, concluía:

- A expiação não seria necessária no mundo, para burilamento da alma, se compreendêssemos o bem, praticando-o por atos, palavras e pensamentos. Se é verdade que nasci condenado ao suplício da cegueira, em tão trágicas circunstâncias, talvez tivesse evitado a consumação desta prova, se abandonasse o meu orgulho para ser um homem humilde e bom.

Um gesto de generosidade de minha parte teria modificado as íntimas disposições de André de Gioras; mas, a realidade é que, não obstante todos os preciosos alvitres do Alto, continuei com o meu egoísmo, com a minha vaidade e com a minha criminosa impenitência.

Agravei, desse modo, meus débitos clamorosos perante a Justiça Divina, e não posso esperar magnanimidade dos juizes que me aguardam...

O velho Públio Lentulus tinha uma lágrima dolorosa no canto dos olhos apagados, mas Ana. que ansiosa lhe escutara as palavras e conceitos, e que se regozijava intimamente verificando que o orgulhoso senhor atingira as mais justas conclusões de ordem evangélica, ilações a que também ela havia chegado nas meditações da velhice, esclarecia, bondosamente, como se as suas afirmativas simples e incisivas chegassem no momento justo para consolação de todos:

- Senador - todas as vossas observações são criteriosas e justas.

Essa lei das vidas múltiplas, em favor do nosso aprendizado nas lutas penosas do mundo, eu a aceito plenamente, pois, nas suas divinas lições, Jesus asseverou que ninguém poderá penetrar o reino dos céus sem renascer de novo. Presumo, todavia, apesar da vossa cegueira material e dos vossos padecimentos, que sei compreender em toda a sua angustiosa intensidade, deveis trazer a alma plena de crença e de esperanças no futuro espiritual, porque também o Cristo nos afiançou que Nosso Pai não quer que se perca uma só de suas ovelhas!...

Públio Lentulus sentiu que uma força inexplicável lhe brotava no íntimo, como se fôra manancial desconhecido, de estranho conforto, preparando-o para enfrentar dignamente todos os amargores.

- Sim - murmurou de leve -, sempre Jesus!... Sempre Jesus!... Sem ele e sem os ensinos de suas palavras que nos enchem de coragem e de fé para alcançar um reino de paz no porvir da alma, não sei bem o que seria das criaturas humanas, agrilhoadas ao cárcere dos sofrimentos terrestres... Sete anos de padecimentos infinitos na soledade dos meus olhos mortos, figuram-se-me sete séculos de aprendizado cruel e doloroso! Somente assim, porém, poderia chegar a entender a lição do Crucificado!

O velho patrício, todavia, ao pronunciar a palavra "crucificado", reconduziu o pensamento a Jerusalém, na Páscoa do ano 33. Recordou que tivera em mãos o processo do Emissário Divino e, só então, ponderou a tremenda responsabilidade em que se vira envolvido naquele dia inolvidável e doloroso, exclamando depois de longa pausa:

- E pensar que, para um espírito como aquele, não houve sequer um gesto decisivo de defesa, da nossa parte, no angustioso momento da cruz infamante... . A mim, que agora vivo tão somente das minhas recordações amargas, parece-me vê-lo ainda à frente dos meus olhos, com os tristes estigmas da flagelação!...

Nele, concentrava-se todo o amor supremo do céu para redenção das misérias da Terra e, entretanto, não vi pessoa alguma trabalhar pela sua liberdade, ou agir efetivamente em seu favor!...

- Menos alguém... - exclamou Ana, inopinadamente. 

Quem chegou a ter esse gesto nobre? - perguntou o velho cego, admirado. - Não me constou que alguém o defendesse.

- É porque ignorastes, até hoje, que vossa digna consorte e minha inesquecível benfeitora, atendendo aos nossos rogos, se dirigiu imediatamente a Pôncio Pilatos, tão logo o triste cortejo havia saído da corte provincial romana, para interceder pelo Messias de Nazaré, injustamente condenado pela multidão enfurecida. Recebida pelo governador no seu gabinete particular, foi em vão que a nobre senhora implorou compaixão e piedade para o Divino Mestre.

- Então Lívia chegou a dirigir-se a Pilatos para suplicar por Jesus? - perguntou o senador, interessado e perplexo, recordando aquela tarde angustiosa da sua vida e rememorando as calúnias de Fúlvia, a respeito da esposa.

- Sim - respondeu a serva -, por Jesus, seu coração magnânimo desprezou todas as convenções e todos os preconceitos, não vacilando em atender às nossas súplicas, tudo fazendo por salvar o Messias da morte infamante!...

Públio Lentulus sentiu, então, grande dificuldade para externar seus pensamentos, com a garganta sufocada de emoção, dentro de suas amargas lembranças, e com os olhos mortos, marejados de lágrimas...

Ana, porém, recordou todos os pormenores daquele dia doloroso, relatando suas passadas emoções, enquanto o senador e a filha lhe escutavam a palavra, tomados de pranto no caminho da dor, da gratidão e da saudade.

E era desse modo que, ao fim de cada dia, sob o céu brilhante e perfumado de Pompeia, aquelas três almas se preparavam para as realidades consoladoras da morte, dentro da claridade terna e triste das lições amargas do destino, na esteira das recordações amigas.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Na destruição de Jerusalém - Segunda Parte VIII

Há dois mil anos
Romance de Emmanuel


Mais de dez anos correram, silenciosamente amargurados, depois de 58, sobre a vida comum das personagens desta história.

Somente em 68, conseguira a política conciliatória de grande número de patrícios, entre os quais Públio Lentulus, o definitivo afastamento de Domício Nero e suas nefandas crueldades. Todavia, a ascensão de Galba durara poucos meses e aquele ano de 69 ia definir grandes acontecimentos na vida do império.

Lutas numerosas encheram a cidade de pavor e sangue. A terrível contenda entre Otão e Vitélio dividira todas as classes da família romana em facções hostis, que se odiavam ao extremo.

Afinal, a famosa batalha de Bedriaco dava o trono a Vitélio, que instaurou novo círculo de crueldades em todos os setores políticos.

A diplomacia interna, porém, vigiava na sombra, examinando atentamente a situação, de modo a não permitir a continuidade de novo surto de extermínio e de infâmia.

Vitélio apenas conservou o governo por oito meses e dias. porque, no mesmo ano de 69, as legiões do território africano, trabalhadas pela orientação sutil dos que haviam derribado Nero e seus asseclas, proclamaram Vespasiano para a suprema investidura do Império. O novo imperador, que ainda se encontrava no campo de seus feitos de armas, empenhado na pacificação da Judeia distante satisfazia as exigências mais avançadas de todas as classes civis e militares, sendo recebido em triunfo para o posto supremo, iniciando-se, assim, a era prestigiosa dos Flávios.

Vespasiano integrava aquele grupo de patrícios operosos que contribuíra, sem alardes, para a queda dos tiranos. Amigo pessoal de Públio Lentulus, o imperador se tornara famoso, não só por suas vitórias militares, mas também por seu criterioso tirocínio político, evidenciado em Roma desde os dias turbulentos de Calígula.

Sob a sua orientação administrativa, ia abrir-se uma trégua nas imoralidades governamentais, inaugurar-se-ia novo período de compreensão das necessidades populares e, na rota dos seus planos econômico-financeiros, o Império ia caminhar para os dias regeneradores de uma era nova.

Públio recebeu todos os acontecimentos com a velada alegria possível aos seus 67 anos de lutas e fortes experiências da vida. Sob a claridade serena da velhice, todavia, sua fibra moral e resistência física eram as mesmas de sempre.

Dentro da perspectiva de melhores dias para as realizações patrióticas, considerava, agora, como bem empregado, todo o tempo que roubara à filha cega, para atender ao trabalho do bem coletivo; e foi nesse estado de espírito, com a consciência satisfeita pelo dever cumprido, de conformidade com as suas concepções, que se dirigiu a palácio para atender a chamado especial do imperador, que, muitas vezes, não deixou de recorrer ao conselho dos seus mais antigos companheiros de ideal.

- Senador - disse-lhe Vespasiano, na intimidade tranquila de um dos magníficos gabinetes da residência imperial -, mandei chamá-lo para me amparar com a sua tradicional dedicação ao Império, na solução de assunto que julgo de suma importância. 

- Dizei, Augusto!... - respondeu Públio, comovido.

Mas o imperador, gentil, cortou-lhe a palavra:

- Não, meu caro, entendamo-nos com a velha intimidade de outros tempos. Deixemos, por um instante, os protocolos. E, vendo que o senador esboçava um sorriso de reconhecimento à sua palavra fluente e generosa, continuou a expor a questão que o interessava:

- Chamado a Roma para o cargo supremo, não ousei desobedecer às sagradas injunções que me impeliam ao cumprimento desse grande dever, embora obrigado a deixar meu filho na obra de pacificação da Judeia amotinada, trabalho esse que considerarei, em toda a vida, o meu melhor esforço pela vitalidade do Império, no desdobramento de suas gloriosas tradições.

Acontece, todavia, que o cerco de Jerusalém se vai prolongando demasiado, acarretando as mais sérias consequências para meus projetos econômicos, no programa restaurador que me propus realizar no governo.

Suponho que o meu valoroso Tito esteja necessitando de um conselho de civis, além dos assistentes militares que o acompanham na arrojada empresa, e lembrei-me de organizá-lo tão somente com os amigos mais íntimos, que conheçam Jerusalém e suas cercanias.

Quando das minhas primeiras incursões na edilidade, tive conhecimento dos seus processos na reforma administrativa da Judeia, sabendo, portanto, da sua permanência em Jerusalém há mais de vinte anos.

Era, pois, meu desejo que aceitasse, com outros poucos companheiros nossos, a incumbência de orientar melhor a tática militar de meu filho. Tito está necessitando da cooperação política de quem conheça a cidade nos seus menores recantos, bem como os seus idiomas populares, de maneira a vencer a situação que se vai tornando cada vez mais penosa.

Públio Lentulus pensou na filha doente, um instante, mas, recordando-se da dedicação absoluta de Ana, que poderia perfeitamente substituir seus zelos por algum tempo, respondeu com decisão e energia:

- Meu nobre imperador, vossa palavra augusta é a palavra do império. O Império manda e eu obedeço, honrando-me em cumprir vossas determinações e correspondendo aos impulsos generosos da vossa confiança.

- Muito agradecido! - falou Vespasiano, estendendo-lhe a mão, extremamente satisfeito. Tudo estará pronto, de modo que sua partida, e de mais dois ou três amigos nossos, se verifique dentro de duas semanas, o mais tardar.

Assim aconteceu. Depois das dolorosas despedidas da filha, que ficara aos cuidados da serva dedicada, no palácio do Aventino, o senador tomava. a suntuosa galera que, largando de Óstia, penetrou depressa o mar largo, rumo à Judeia.

O velho patrício reviveu, com penosa serenidade, as peripécias da viagem dos seus tempos de juventude venturosa, quando a felicidade era para ele incompreensível, em companhia da esposa e dos dois filhinhos.

Sim, a pequenina figura de Marcus, o filho desaparecido, parecia surgir novamente a seus olhos, sob uma auréola de radioso e santificado enlevo.

Um dia, em Cafarnaum, levado pelas palavras caluniosas de Sulpício Tarquinius, duvidou da honorabilidade da mulher, acreditando, mais tarde, que o rapto da criança fosse uma consequência da sua infidelidade. Mas Lívia agora estava redimida de todas as culpas, no tribunal da sua consciência. Seus sacrifícios domésticos e a morte heroica no circo constituíam a prova máxima da sublimada pureza do seu coração.

Naqueles instantes de meditação, figurava-se-lhe que voltava ao passado com os seus sofrimentos intermináveis, esbarrando sempre na sombra pesada do mistério, quando tentava reler as páginas desse doloroso capítulo da sua existência.

A que abismos insondáveis e desconhecidos teria sido levado o pequenino que lhe perpetuaria a estirpe nobre? Suas emoções paternais pareciam alarmar-se de novo, depois de tantos anos e tantos padecimentos em família.

Mas, embora lhe flutuassem no íntimo as mais penosas dúvidas, o senador, na rigidez da sua enfibratura moral, preferia crer, consigo mesmo, que Marcus Lentulus havia sido assassinado por malfeitores vulgares, dados ao roubo e ao terrorismo, para nunca mais requisitar os seus desvelos paternais.

Assim quereria crer, mas aquela viagem afigurava-se-lhe uma análise de suas lembranças mais queridas e mais pungentes.

De tarde, ao suave clarão do crepúsculo no Mediterrâneo, parecia lhe ver ainda o vulto de Lívia acalentando o pequenino, ou falando-lhe ao coração em termos afetuosos de consolação, supondo lobrigar, igualmente, a figura de Comênio, o servo de confiança, entre os subalternos e escravos.

Em companhia de três outros conselheiros civis, chegou sem maior dificuldade ao destino, colocando-se esse reduzido conselho de íntimos do imperador à imediata disposição de Tito, que lhe aproveitou os pareceres, utilizando com grande êxito as suas opiniões, filhas de larga experiência da região e dos costumes.

O filho do imperador era generoso e leal para com todos os compatriotas, que o consideravam como benfeitor e amigo. Mas, para os adversários, Tito era de uma crueldade sem nome.

Em torno da sua figura ardente e desassombrada, desdobravam-se legiões numerosas de soldados que combatiam encarniçadamente.

O cerco de Jerusalém, terminado em 70, foi um dos mais impressionantes da história da humanidade.

A cidade foi sitiada, justamente quando intermináveis multidões de peregrinos, vindos de todos os pontos da província, se haviam reunido junto ao templo famoso, para as festas dos pães ázimos. Daí, o excessivo número de vítimas e as lutas acérrimas da célebre resistência.

O número de mortos nos terríveis recontros elevou-se a mais de um milhão, fazendo os romanos quase cem mil prisioneiros, dos quais onze mil foram massacrados pelas legiões vitoriosas, depois da escolha dos homens válidos, entre cenas penosas de sangue e de selvageria por parte dos soldados.

O velho senador sentia-se amargurado com aqueles pavorosos espetáculos de carnificina, mas cumpria-lhe desempenhar a palavra dada e era com o melhor espírito de coragem que dava pleno cumprimento ao seu mandato.

Seus pareceres e conhecimentos foram, muitas vezes, utilizados com êxito, tornando-se íntimo conselheiro do filho do imperador.

Diariamente, em companhia de um amigo, o senador Pompílio Crasso, visitava os postos mais avançados das forças atacantes, verificando a eficácia da nova orientação observada pela estratégia militar dos seus patrícios Os chefes de operações várias vezes lhes chamaram a atenção, para não avançarem muito em suas atitudes de desassombro, mas, Públio Lentulus não manifestava o menor receio, realizando, na sua idade, minuciosos serviços de reconhecimento topográfico da famosa cidade.

Afinal, na véspera da queda de Jerusalém, já se lutava quase corpo a corpo em todos os pontos de penetração, havendo incursões de parte a parte nos campos inimigos, com reciprocas crueldades contra todos os que tivessem a infelicidade de cair prisioneiros.

Apesar do zelo de que eram cercados, Públio e o amigo, em virtude da coragem de que davam testemunho, caíram nas mãos de alguns adversários que, ao lhes observarem a indumentária de altos dignitários da Corte Imperial, os conduziram imediatamente a um dos chefes da desesperada resistência, instalado num casarão à guisa de quartel, próximo da Torre Antônia.

Públio Lentulus, observando as cenas de selvajaria e sangue da plebe anônima e amotinada, que exterminava numerosos cidadãos romanos sob as suas vistas, lembrou a tarde dolorosa do Calvário, em que o piedoso profeta de Nazaré sucumbira na cruz, sob a vozeada terrificante das multidões enfurecidas. Enquanto caminhava tangido com brutalidade e aspereza, o velho senador considerava, igualmente, que, se aquele momento assinalasse a sua morte, devia morrer heroicamente, como sua própria mulher, em holocausto aos seus princípios, embora houvesse fundamental diferença entre o reino de Jesus e o império de César. A ideia de deixar Flávia Lentúlia órfã do seu afeto preocupava-lhe o íntimo; todavia, ponderava que a filha teria no mundo a dedicação generosa e assídua de Ana, bem como o amparo material da sua fortuna.

Foi nesse estado de espírito, surpreso com a sucessão dos  acontecimentos, que atravessou longas ruas cheias de movimento, de gritos, de impropérios e de sangue.

Jerusalém, tomada de assombro, mobilizava as derradeiras energias para evitar a ruína completa.

Ao cabo de algumas horas, extenuados de fadiga e sede, Públio e o amigo foram introduzidos no sombrio gabinete de um chefe judeu, que expedia as mais impiedosas ordens de suplício e morte para todos os romanos presos, revidando às atrocidades do inimigo.

Bastou que Públio fitasse aquele velho israelita de traços característicos, para procurar, sofregamente, uma figura semelhante no acervo de suas lembranças mais íntimas e mais remotas.

Não pôde, porém, de pronto, identificar aquela personagem.

O velho chefe, contudo, pousou nele o olhar astuto e, fazendo um gesto de satisfação, exclamou com uma chispa de ódio a lhe transparecer de cada palavra:

- Ilustríssimos senadores - enfatizou com ironia e desprezo -, eu vos conheço de longos anos...

E, fixando Públio, acentuou com malícia:

- Sobretudo, honro-me com a presença do orgulhoso senador Públio Lentulus, antigo legado de Tibério e de seus sucessores nesta província perseguida e flagelada pelas pragas romanas. Ainda bem que as forças do destino não me permitiram partir para a outra vida, na minha velhice trabalhosa, sem me desafrontar de uma injúria inolvidável.

Avançando para o velho patrício que o contemplava supinamente surpreendido, repetia com insistência irritante:

- Não me reconheceis?...

O senador, porém, tinha o semblante a evidenciar o seu penoso abatimento físico, em face daquela rude provação da sua vida; debalde, encarava a figura franzina e maquiavélica de André de Gioras, agora com elevado ascendente nos trabalhos do templo famoso, em vista da fortuna que Conseguira amealhar.

Verificando a impossibilidade de ser identificado pelo prisioneiro, cuja presença, ali, mais o interessava e que lhe respondera a todas as perguntas com silencioso gesto negativo, o velho judeu retornou com sarcasmo:

- Públio Lentulus, sou André de Gioras, o pai a quem insultaste um dia com o excesso da tua autoridade orgulhosa. Lembras-te agora? O prisioneiro fez um sinal afirmativo com a cabeça.

Vendo, porém, que o seu atrevimento não o intimidava, o chefe de Jerusalém insistia exasperado:

- E porque não te humilhas neste momento, diante de minha autoridade? Ignoras, porventura, que posso hoje decidir dos teus destinos?... Qual a razão por que não me pedes comiseração?

Públio estava exausto. Lembrou os seus primeiros dias em Jerusalém, recordou a visita daquele agricultor inteligente e revoltado.

Procurou rememorar, intimamente, as providências que adotara na qualidade de homem público, a fim de que o filho do judeu voltasse ao lar paterno, não se lembrando de haver destilado tanto fel naquele coração irresignado. Deliberara nada dizer, diante da sua figura exasperada e truculenta, atendendo às suas íntimas disposições espirituais, mas, em face da ousada insistência, sem abdicar as antigas tradições de orgulho e vaidade que o caracterizavam noutros tempos, e como se desejasse demonstrar desassombro em tão penosas circunstâncias, replicou, afinal, com energia:

- Se vos julgais aqui no cumprimento de uma obrigação sagrada, acima de qualquer sentimento particular e menos digno, não espereis que se vos peça comiseração, pelo fato de cumprirdes o vosso dever.

André de Gioras franziu o sobrolho, exasperado com a resposta imprevista, andando de um lado para outro no amplo gabinete, como se estivesse a cogitar o melhor meio de executar a tremenda vingança.

Depois de alguns momentos de sombrio silêncio, como se houvesse chegado a uma solução condigna dos seus tigrinos projetos, chamou com voz soturna um dos guardas numerosos, ordenando:

- Vai depressa e dize a Ítalo, de minha parte, que deve aqui estar amanhã, às primeiras horas, de modo a cumprir minhas determinações.

E enquanto o emissário saía, dirigiu-se aos dois prisioneiros nestes termos:

- A queda de Jerusalém está iminente, mas darei a última gota de sangue da minha velhice para exterminar as víboras do vosso povo. Vossa raça maldita veio cevar-se na cidade eleita, mas eu exulto com a minha vingança em vós ambos, orgulhosos dignitários do império da impiedade e do crime! Quando se abrirem as portas de Jerusalém, terei executado meus implacáveis desígnios!

Calando-se, bastou um gesto para que os dois amigos fossem atirados numa enxovia escura e úmida, onde passaram uma noite terrível de conjeturas dolorosas, trocando amarguradas confidências.

Na manhã seguinte, eram chamados à prova suprema. 

Já se ouviam na cidade os primeiros rumores das forças romanas vitoriosas, entregando-se ao terror e ao saque da população humilhada e inerme.
Por toda parte, o êxodo precipitado de mulheres e crianças em gritaria infernal e angustiosa; mas, naquele casarão de grossas paredes de pedra, refugiara-se considerável número de chefes e combatentes, para a resistência suprema.

Públio e Pompílio foram conduzidos a uma sala ampla, de onde podiam ouvir o ruído crescente da vitória das armas imperiais, depois de lances dramáticos e cruentos, em tanto tempo de terror, de rapina e de luta; todavia, ali, naquele compartimento espaçoso e fortificado, tinha à frente centenas de guerreiros armados e alguns chefes políticos da resistência israelita, que os contemplavam.

Diante do avanço vitorioso das legiões romanas, era de notar a inquietação e o pavor que dominavam todos os semblantes, mas havia um interesse geral pelos dois prisioneiros importantes do Império, como se eles representassem o último objeto em que se pudessem cevar o ódio e a vingança.

Modificando, todavia, aquela situação indecisa, André de Gioras tomou a palavra em voz estranha e sinistra, que retumbou por todos os ângulos da casa:

- Senhores! estamos chegando ao fim da nossa desesperada defesa, mas temos o consolo de guardar dois grandes chefes da amaldiçoada política de rapina do império Romano!... Um deles é Pompílio Crasso, que começou a sua carreira de homem público nesta província desventurada, inaugurando um longo período de terror entre os nossos compatriotas infelizes! O outro, senhores, é Públio Lentulus, orgulhoso legado de Tibério e de seus sucessores na Judeia humilhada de todos os tempos; que escravizou nossos filhos ainda jovens e organizou processos criminosos em todas as zonas provinciais, fomentando o pavor de nossos irmãos perseguidos e flagelados, lá da sua residência senhorial da Galileia!... Pois bem! antes que os malditos soldados da pilhagem imperial nos aprisionem e aniquilem, cumpramos nossos desígnios!...

Todos os presentes ouviram-lhe a palavra, como se fora a ordem suprema de um chefe a quem se devesse obedecer cegamente.

Os dois senadores foram, então, amarrados com pesadas peças de ferro aos postes do suplício, sem liberdade para qualquer movimento, restringindo suas expressões de mobilidade aos olhos silenciosos e serenos no sacrifício.

- Nossa vingança - voltava o odiento israelita a explicar - deve obedecer ao critério da antiguidade. Primeiramente, deverá morrer Pompílio Crasso, por ser o mais velho e para que o vaidoso senador Públio Lentulus compreenda o nosso esforço para eliminar a vitalidade do seu império maldito.

Pompílio fitou longamente o amigo, como se estivesse fazendo suas despedidas angustiosas e mudas, na hora extrema.

- Nicandro, este trabalho te compete - exclamou André, voltando-se para um dos companheiros.

E dando ao vigoroso soldado uma espada sinistra, acrescentou com profunda ironia:

- Tira-lhe o coração para o amigo, que deverá conservar a cena de hoje na sua memória, para sempre.

Os olhos do condenado brilharam de intensa angústia, enquanto as faces descoravam ao extremo, acusando as emoções dolorosas que lhe iam na alma. Entre ele e o companheiro de amargura, foi trocado, então, um olhar inesquecível.

Em minutos rápidos, Públio Lentulus assistiu ao desenrolar da operação nefanda.

A cabeça branca do supliciado pendeu ao primeiro golpe de espada e do seu tórax encarquilhado foi arrancado violentamente o coração palpitante, sangrento.

Entretanto, o senador sobrevivente ouvia já o rumor dos patrícios vitoriosos que se aproximavam afigurando-se-lhe que já se lutava corpo a corpo, às portas daquela turbulenta assembleia da vindita e do crime. A monstruosa cena estarrecia-lhe o ânimo, sempre otimista e decidido, mas não perdeu a compostura altiva e rígida que ele a si mesmo se impunha, naquele angustioso transe.

Terminada a execução de Pompílio, feita à pressa, porquanto todos os presentes tinham consciência da horrorosa situação que os esperava diante dos triunfadores, André de Gioras levantou novamente a voz:

- Meus amigos - afirmou soturnamente -, ao mais velho, a penalidade misericordiosa da morte; mas, a este patrício infame que nos ouve, concederemos a pena amarga da vida, dentro do sepulcro das suas ilusões desvairadas, de vaidade e orgulho!... Públio Lentulus, o antigo emissário dos imperadores, deverá viver!... Sim, mas sem os olhos que lhe clarearam o caminho do egoísmo supremo sobre os nossos grandes infortúnios!... Deixá-lo-emos com vida, para que nas trevas da sua noite busque ver com os olhos dos escravos que ele espezinhou no curso da vida.

Havia um penoso silêncio interior, embora se ouvisse, lá fora, o patear dos cavalos e o tinir das armaduras, aliados ao rumor sinistro de vozes praguejantes no ataque e na resistência desesperada do último reduto.

André de Gioras parecia, porém, embriagado com a volúpia de sua vingança e, mantendo o equilíbrio da assistência naquela hora trágica do destino que a todos aguardava, com a palavra magnética e persuasiva exclamou energicamente:

- Ítalo, compete ás tuas mãos a tarefa deste momento.

Da assistência compacta e inquieta destacou-se um homem, aparentando quase quarenta anos de idade, surpreendendo o senador pelos seus traços finos de patrício. Seus olhares encontraram-se e ele 
supôs descobrir naquela alma um laço de afinidade estranha e incompreensível.

Ítalo? Aquele nome não lhe recordava alguma coisa das proximidades da sua Roma inesquecida? Por que motivo estaria ali aquele homem, evidentemente de sangue nobre, combatendo ao lado dos judeus amotinados e intoxicados de ódio? Por sua vez, o verdugo, indicado pela voz soberana de André, parecia inclinado à ternura e à piedade por aquele homem velho e sereno, de mãos e pés amarrados ao poste da injúria, como que hesitava sobre se devia cumprir o sinistro e despiedado desígnio do seu chefe.

Daí a minutos, surgia, de uma porta larga e sombria, um guerreiro israelita, trazendo em ampla bandeja de bronze uma lâmina de ferro incandescente, cuja ponta aguçada repousava entre brasas vivas.

Contemplando com interesse a enigmática figura de Ítalo, na vitalidade da idade adulta, o senador, silencioso, não podia dissimular a curiosidade em face do seu vulto ereto e delicado.

André, porém, gozando o quadro e percebendo a acurada atenção do condenado, arrancou-o daquele estado de conjetura e surpresa, ironizando:

- Então, senador, estais admirando o porte nobre de Ítalo?...

Lembrai-vos de que se os patrícios se dão ao luxo de possuir escravos israelitas, os senhores da Judeia também apreciam os servos de tipo romano. Aliás, sou obrigado a considerar que é sempre perigoso guardarmos um escravo como este, na cidade, em vista da praga do patriciado, hoje excessivo por toda a parte; mas eu consegui manter este homem de trabalho no ambiente rural, até agora...

Públio Lentulus mal poderia decifrar o sentido oculto daquelas irônicas palavras, não lhe sobrando tempo, ali, para qualquer introspecção. Observou que André se calara, atendendo à urgência com que devia ser levada a efeito a operação em perspectiva, de modo a não se perder o vermelho incandescente da lâmina fatídica. Diante de muitos olhares atônitos e desesperados, que não sabiam se fixavam a cena macabra ou se atentavam para a ruidosa penetração das forças de Tito a quebrarem naquele instante os obstáculos do último reduto, o algoz implacável entregou a Ítalo o terrível instrumento do sacrifício.

- Ítalo - recomendou com a máxima energia -, este minuto é precioso... Vamos queimar-lhe as pupilas, de modo a lhe proporcionarmos uma sepultura de sombras eternas, dentro da vida.

O pobre homem, todavia, sensibilizado até às lágrimas, em face do suplício que deveria infligir por suas mãos, parecia indeciso e titubeante.

- Senhor... - disse súplice, sem conseguir formular objeções.

- Porque hesitas?... - revidou André, tiranicamente, cortando-lhe a palavra. - Será preciso o chicote para que me obedeças?

Ítalo tomou, então, da lâmina, humildemente. Aproximou-se de leve do condenado cheio de resignação e de fortaleza interior. Antes do instante supremo, seus olhares se encontraram, trocando vibrações de simpatia recíproca. Públio Lentulus ainda lhe fixou o porte, tocado de incontestável nobreza, esfacelada em suas linhas mais características pelos trabalhos mais impiedosos e mais rudes; e tão grande foi a atração que experimentou por aquele homem, fixado pelos seus olhos em plena luz, pela vez derradeira, que chegou a se recordar, inexplicavelmente, do seu pequenino Marcus, considerando que, se ele ainda vivesse num ambiente tão hostil, deveria ter aquele porte e aquela idade.

As mãos de Ítalo, trêmulas e hesitantes, aproximaram-se dos seus olhos exaustos, como se o fizessem numa doce atitude de carinho; mas o ferro incandescente, com a rapidez do relâmpago, feriu-lhe as pupilas orgulhosas e claras, mergulhando-as na treva para todo o sempre.

Nisso, observou a vítima que uma gritaria infernal reboava em toda a sala.

Uma dor indefinível irradiava-se da queimadura, fazendo-lhe experimentar atrozes padecimentos.

Ele nada mais divisava, além das trevas espessas que lhe cobriam o espírito, mas adivinhava que as forças vitoriosas chegavam tardiamente para libertá-lo.

No meio dos ruídos ensurdecedores, André de Gioras ainda se aproximou do condenado, falando-lhe ao ouvido:

- Poderia matar-te, senador infame, mas quero que vivas. Vou revelar-te, agora, quem é Ítalo, teu algoz do último instante!...

Mas um golpe violento de espada, brandida por um legionário romano, fizera o velho israelita cair ao solo sem sentidos, enquanto certeira punhalada atingia Ítalo, indeciso na sua estupefação, que caiu pesadamente junto do supliciado, abraçando--lhe os pés, num gesto significativo e supremo.

Vozes amigas rodearam, então, Públio Lentulus, naquele ambiente tumultuário. Desataram-lhe imediatamente os pés e as mãos, restituindo lhe a liberdade dos movimentos, enquanto outros legionários retiravam o cadáver de Pompílio Crasso, com o peito vazio, num quadro pavoroso de selvajaria sanguinosa.

Serenados os primeiros tumultos e guardando as mais penosas dúvidas sobre as palavras reticenciosas do inimigo implacável, Públio Lentulus, antes de ser levado pelo braço dos companheiros ao comando das forças em operações, onde receberia os primeiros socorros, recomendou que tratassem com o máximo respeito o cadáver de Ítalo, que jazia ao lado de um montão de despojos sangrentos, no que foi atendido, obtemperando-lhe, porém, um companheiro:

- Senador, antes de tudo, não vos esqueçais do vosso estado, que está requerendo de todos nós os mais urgentes cuidados.

E como se quisesse provocar uma explicação espontânea do ferido, quanto ao seu interesse pelo morto, acentuou delicadamente:

- Não foi esse homem quem vos infligiu o horrendo suplício?

À vista da pergunta inopinada e necessitando justificar sua atitude perante os compatriotas que o ouviam, Públio exclamou com voz pungente:

- Enganais-vos, meu amigo. Esse homem cujo cadáver agora não vejo, era nosso conterrâneo, prisioneiro de muito tempo pela sanha vingativa de um poderoso senhor de Jerusalém... Observai-lhe os traços nobres e concordareis comigo!...

E enquanto se retirava amparado pelos amigos, a fim de receber socorros imediatos e imprescindíveis, supôs haver cumprido um dever, em pronunciando aquelas palavras, porque misteriosas vozes lhe falavam ao coração, acerca daquele olhar generoso que pousara em seus olhos pela última vez.

Vários dias esteve Jerusalém entregue ao saque e à desordem, levados a efeito pela soldadesca do império, faminta de prazeres e envenenada no vinho sinistro do triunfo. Todos os chefes da resistência israelita foram presos, a fim de comparecerem a Roma para o último sacrifício, em homenagem às festas comemorativas da vitória. Entre eles incluía-se André de Gioras, que, restabelecido das escoriações recebidas, representava um dos que deveriam ser exterminados para gáudio da assistência festiva na Capital do império.

Depois da matança de onze mil prisioneiros feridos ou inválidos, massacrados pelas legiões vencedoras; depois dos pavorosos espetáculos da destruição e saque do templo magnífico, no qual Israel julgava contemplar a sua obra eterna e divina para todas as gerações da sua posteridade prolífica, voltou a caravana compacta dos vencidos e vencedores, cheia de riquezas ilícitas e troféus maravilhosos, de modo a exibir em Roma todos os ornamentos ilustrativos da vitória, entre vibrações tumultuárias e cânticos de triunfo.

Numa galera confortável e tranquila, viajou Públio Lentulus, resignado dentro da noite cerrada da sua cegueira, rodeado de amigos prestimosos que tudo faziam por minorar-lhe os sofrimentos morais.

Antes de chegar a Roma, vezes muitas cogitou da melhor maneira de se dirigir diretamente a André, para arrancar-lhe a verdade e serenar as dúvidas íntimas, quanto à identidade do escravo de tipo romano, que o ferira para sempre, nos preciosos dons da vista. Ele, porém, agora, estava cego, e para realizar esse desejo teria de empregar um largo processo de providências, de colaboração estranha, e, assim, não havia atinado com a melhor maneira de ouvir o judeu sem ferir as tradições de dignidade pessoal, mantida em todos os tempos da vida pública.

Foi, ainda, nesse impasse que chegou, novamente, ao palácio do Aventino, acompanhado de numerosos companheiros de labores políticos, surpreendendo amarguradamente o coração da filha com a notícia trágica e dolorosa da sua cegueira.

Ana, qual anjo fraterno, valorosa irmã de todos os infortunados, sincera discípula do Cristianismo, esperou carinhosamente o seu senhor junto de Flávia que exclamava cheia de incoercível desalento:

- Meu pai, meu pai, mas que desgraça!...

O velho patrício, todavia, no seu otimismo, confortava-lhe o espírito, obtemperando:

- Filha, não te dês ao trabalho de conjeturar a fundo os problemas do destino. Em todos os acontecimentos da vida temos de louvar os soberanos desígnios dos céus e espero que te encorajes de novo, porque somente assim viverei agora, junto de ti, em consolação afetuosa e recíproca! Foi o próprio destino que me afastou compulsoriamente das lides do Estado, a fim de viver doravante somente por ti.

Abraçaram-se então efusivamente, fundiram-se em beijos do mesmo infortúnio, vibrações de duas almas presas aos mesmos padecimentos. 

Públio Lentulus, porém, embora o necessário descanso, e apesar da cegueira que lhe impossibilitava as iniciativas, não perdeu a esperança de ouvir a palavra do inimigo implacável, ainda uma vez, e, para isso, aguardou o dia ansiosamente esperado pelo povo romano, das soberanas festas do triunfo.

Convém acentuar que o velho senador foi conduzido à cidade imediatamente, em virtude da sua especialíssima situação; mas o vencedor e as suas legiões infindáveis entrariam em Roma com todos os faustosos protocolos dos triunfadores, de conformidade com os numerosos regulamentos da própria antiga República.

No dia aprazado, toda a Capital, com a sua população de um milhão e meio de habitantes, aproximadamente, aguardava as magníficas comemorações da vitória.

Desde as primeiras horas do dia, começaram a grupar-se ás portas da cidade as legiões vencedoras, desarmadas, vestindo delicadas túnicas de seda, ostentando soberbas auréolas de louro. Transpondo as portas da cidade, sob os aplausos estrondosos de multidões sem fim, foi-lhes oferecido esplêndido banquete, presidido pelo próprio imperador e seu filho.

Vespasiano e Tito, logo após as cerimônias do Senado, no Pórtico de Otávia, encaminharam-se para a Porta Triunfal. Ali, ofereceram um sacrifício aos deuses e tomaram os símbolos do triunfo nas aparatosas festividades imperiais. Realizada essa cerimônia, pôs-se em marcha o grande cortejo, ao qual Públio Lentulus não faltou, com a secreta intenção de ouvir a palavra reveladora do chefe prisioneiro, cujo cadáver, depois dos sacrifícios daquele dia, seria atirado às águas do Tibre, de acordo com as tradições vigentes.

Todos os troféus das batalhas sanguinolentas e todos os vencidos, em número considerável, eram levados igualmente em procissão, na festa indescritível.

À frente do cortejo imenso, seguia incalculável quantidade de obras de ouro puro, enfeitadas de cores variadas e berrantes, e, logo após, pedras preciosas em número incontável, não só em coroas de fulgurante beleza, como também em estofos que maravilhavam os espectadores pela variedade, sendo de notar que todos esses tesouros eram carregados por jovens legionários trajando túnicas de púrpura, com graciosos ornamentos dourados.

Depois da exibição dos tesouros conquistados pelo triunfador, vinham, às centenas, as estátuas dos deuses, talhadas em marfim, em ouro, em prata, de tamanhos prodigiosos.

Em seguida aos deuses, todo um exército de animais, das mais variadas espécies, entre os quais se distinguiam numerosos dromedários e elefantes cobertos de magníficas pedrarias.

Acompanhando os animais, a multidão compacta e acabrunhada dos prisioneiros vulgares, exibindo sua miséria e olhares tristes, procurando ocultar dos espectadores impiedosos e irreverentes os ferros pesados que os manietavam.

Após os prisioneiros sucumbidos, passavam os simulacros das cidades vencidas e humilhadas, confeccionados com grande esmero, sustentados nos ombros de soldados numerosos, semelhantes aos modernos carros alegóricos das festas carnavalescas. Havia representações de todas as cidades destruídas e saqueadas, de batalhas vitoriosas, sem faltar o arrasamento dos campos, a queda de muralhas e os incêndios devastadores.

Depois desses símbolos, eram os despojos riquíssimos dos povos vencidos e das cidades conquistadas, principalmente os de Jerusalém, carregados com muito desvelo pelos legionários. Sob os aplausos gritantes e irreverentes da turba que se apinhava por toda a parte, desfilaram as estátuas representando as figuras de Abraão e Sara, bem como de todas as personalidades reais da família de David, e mais todos os objetos sagrados do famoso templo de Jerusalém, tais a mesa dos Pães de Proposição, feita de ouro maciço, as trombetas do Jubileu, o castiçal de ouro com sete braços, o'paramentos de alto valor intrínseco, os véus sagrados do Templo, e, por fim, a Lei dos judeus, que seguia atrás de todos os despojos materiais, pilhados pelas forças triunfadoras. Cada objeto era carregado em andores preciosos e bem ornamentados, ao ombro dos legionários romanos coroados de louros.

Após os textos da Lei, seguia Simão, o desventurado chefe supremo de todos os movimentos da resistência de Jerusalém, acompanhado dos seus três auxiliares diretos, inclusive André de Gioras. Todos esses chefes da longa e desesperada resistência vestiam de preto e caminhavam solenemente para o sacrifício, depois de exibidos em todas as comemorações festivas do triunfo.

Em seguida, vinham os carros soberbos e magníficos dos triunfadores. Após a passagem deslumbrante de Vespasiano, desfilava Tito num oceano de púrpura, de sedas e de vermelhão, simbolizando o próprio Júpiter, na embriaguez da sua vitória.

No séquito de honra, passava igualmente o senador valetudinário e cego, não mais pelo prazer das homenagens, mas com o secreto desejo de ouvir a palavra de André, antes do trágico momento em que o seu corpo balançasse sobre as águas lodosas do Tibre, no instante da consumação do último suplício, sob os aplausos delirantes do povo.

Após os carros imperiais dos vencedores e seus áulicos mais íntimos, vinha o exército compacto, entoando os hinos da vitória, enquanto todas as ruas e praças, foros e pórticos, terraços e janelas, se pejavam de incalculáveis multidões curiosas.

O cortejo movimentou-se solenemente, desde a Porta Triunfal até ao Capitólio. Longas horas foram gastas no trajeto, através do sinuoso caminho, porquanto a festividade era consumada de molde a levar seus esplendores pelos recantos mais aristocráticos do patriciado romano.

Em dado momento, todavia, antes de se elevar à colina, todo o cortejo parou e os olhos ansiosos da multidão convergiram para Simão e seus três companheiros, auxiliares diretos da sua chefia na resistência da cidade famosa.

Públio Lentulus, embora cego, mas afeito ao tradicionalismo daquelas comemorações, compreendeu que era chegado o instante supremo.

Em virtude do seu caso especialíssimo e considerando a deferência que a autoridade julgava dever-lhe, o imperador preocupava-se com a sua situação no cortejo, recomendando ao filho, Domiciano, atender a quaisquer providências de que viesse a precisar em tais circunstâncias.

Naquele momento, debaixo das vibrações ruidosas do delírio popular, procedia-se ao flagício de Simão, diante de toda a Roma embriagada e vitoriosa, enquanto André de Gioras e os dois companheiros eram conduzidos à Prisão Mamertina, onde aguardariam o chefe, após a flagelação, para a morte em conjunto, de maneira que os cadáveres pudessem ser arrastados através das Gemônias e, sob as vistas do povo, atirados às correntes do Tibre.

De alma ansiosa, mas disposto a realizar seus desígnios, o senador chamou o príncipe a cuja assistência fora recomendado, expressando-lhe o desejo de dirigir a palavra a um dos prisioneiros, em particular e em condições secretas, no que foi imediatamente atendido.

Domiciano tomou-lhe do braço com atenção e, conduzindo-o a uma dependência da prisão sinistra, determinou a vinda de André a um cubículo isolado e secreto, conforme o desejo de Públio, aguardando o fim da entrevista numa sala próxima, juntamente com alguns guardas, tão logo penetrou o condenado para o interrogatório do antigo político do Senado.

Defrontando-se, os dois inimigos tiveram estranha sensação de mal estar.

Públio Lentulus não mais podia vê-lo, mas se os seus olhos já não tinham expressão emotiva, crestadas para sempre as pupilas claras e enérgicas, seu perfil ereto manifestava as emoções que o dominavam.

- Senhor André - exclamou o senador, profundamente emocionado -,contra todos os meus hábitos provoquei este encontro secreto, de modo a esclarecer minhas dúvidas sobre as palavras reticenciosas em Jerusalém, no dia em que consumastes vossas impiedosas determinações a meu respeito. Não quero, agora, entrar em pormenores sobre a vossa atitude, mas tão somente informar-vos, neste momento em que a justiça do Império vos toma à sua conta, que tudo fiz por devolver-vos o filho prisioneiro, cumprindo um dever de humanidade, ao receber as vossas súplicas. Lamento que as minhas providências tardias não alcançassem o efeito desejado, fermentando tão violenta odiosidade no vosso coração.

Agora, porém, não mais ordeno. Um cego não pode determinar providências de qualquer natureza, em face das penosas injunções da sua própria vida, mas solicito o vosso esclarecimento, sobre a personalidade do escravo que me crestou a vista para sempre!...

André de Gioras estava igualmente abatidíssimo na sua decrepitude enfermiça. Comovido pela atitude daquele pai humilhado e infeliz e fazendo o íntimo retrospecto dos seus atos criminosos, naquelas horas supremas de sua vida, respondeu extremamente compungido:

- Senador Lentulus, a hora da morte é diferente de todas as outras que o destino concede à nossa existência à face deste mundo... É por isso, talvez, que sinto o meu ódio agora transformado em piedade, avaliando o vosso sofrimento amargo e rude. Desde que fui preso, venho considerando os erros da minha vida criminosa... Trabalhando no Templo e vivendo para o culto da Lei de Moisés, só agora reconheço que Deus concede liberdade de ação a todos os seus filhos, mormente aos seus sacerdotes, tocando lhes, porém, a consciência, no momento da morte, quando nada mais resta senão a apresentação da alma falida, diante de um tribunal a que ninguém pode mentir ou subornar!... Sei que é tarde para reagir no caminho percorrido, a fim de refazer os nossos atos; mas um sentimento novo me faz falar-vos aqui com a sinceridade do coração, que, acicatado pelo julgamento divino, já não pode enganar a ninguém.

Há quase quarenta anos, vossa austeridade orgulhosa determinou a prisão do meu único filho, remetendo-o impiedosamente para as galeras, e debalde implorei a vossa demência de homem público, para o meu espírito desamparado... Das galeras, contudo, meu pobre Saul foi remetido para Roma, onde foi vendido, miseravelmente, num mercado de escravos, ao Senador Flamínio Severus...

Nesse instante, o cego, que escutava atenta e eminentemente emocionado, ao identificar, naquela narrativa, o algoz da filha, interrompeu-a perguntando:

- Flamínio Severus?

- Sim, era também, como vós, um senador do Império.

Profundamente emocionado, ao ligar os fatos dolorosos de sua família à pessoa do antigo liberto, mas necessitando de todas as energias morais para dominar-se, o senador recalcou no íntimo a sua amargura, conservando-se em atitude de expressivo silêncio, enquanto o condenado prosseguia:

- Saul, todavia, foi feliz... Abraçou a liberdade e fez fortuna, voltando de vez em quando a Jerusalém, onde me ajudou a prosperar; mas, devo revelar-vos que, não obstante os textos da Lei por mim pregada muitas vezes, que nos manda desejar ao próximo o que desejaríamos para nós mesmos, não cruzei os braços ante a vossa arbitrariedade criminosa, jurando vingar-me a qualquer preço; para isto, numa noite tranquila, roubei o vosso pequenino Marcus na vossa residência de Cafarnaum, de cumplicidade com uma de vossas servas, que mais tarde tive de envenenar, para que não viesse a revelar o segredo e tolher meus sinistros propósitos, quando a vossa ansiedade paterna instituiu, em Jerusalém, o prêmio de um Grande Sestércio a quem descobrisse o paradeiro do pequenino...

Lembrareis, por certo, da criada Sêmele, que morreu repentinamente em vossa casa...

Enquanto André do Gioras se detinha na triste confissão que lhe tocava as fibras mais íntimas da alma, representando cada palavra um estilete de amargura a lhe retalhar o coração, Públio Lentulus chegava tardiamente ao conhecimento de todos os fatos, recordando os angustiosos martírios da companheira, como esposa caluniada e mãe carinhosa.

Impressionado, porém, com o seu silêncio doloroso, André continuava:

- Pois bem, senador; obedecendo aos meus sentimentos condenáveis, raptei vosso filhinho, que cresceu humilhado nos mais rudes trabalhos da lavoura... aniquilei-lhe a inteligência... favoreci-lhe o ingresso nos vícios mais desprezíveis, pelo prazer diabólico de humilhar um romano inimigo, até que culminei na minha vindita em nosso encontro inesperado! Mas, agora, estou diante da morte e não sei enxergar mais a nossa situação, senão como pais desventurados... Sei que vou comparecer breve no tribunal do mais íntegro dos juízes, e, se vos fosse possível, eu desejava que me désseis um pouco de paz com o vosso perdão!

O velho senador do Império não saberia explicar as suas profundas dores, ouvindo aquelas revelações angustiosas e amargas. Ouvindo André, sentia ímpetos de perguntar pelo filhinho em criança, por suas tendências, pelas suas aspirações da mocidade; desejava inteirar-se dos seus trabalhos, das suas predileções, mas cada palavra daquela confissão amargurosa era uma punhalada nos seus sentimentos mais sagrados.

Qual estátua muda do infortúnio, ainda ouviu o prisioneiro repetir, quase em lágrimas, arrancando-o das suas divagações sombrias e tormentosas:

- Senador - insistia ele, suplicando tristemente -, perdoai-me! Quero compreender o espírito da minha Lei, apesar do último instante!... Relevai meu crime e dai-me forças para comparecer diante da luz de Deus!...

Públio ouvia-lhe a voz súplice, enquanto uma lágrima de dor indescritível rolava dos seus olhos tristes e apagados.

Perdoar? Mas, como? Não fora ele, Públio, o ofendido e a vítima de uma existência inteira? Singulares emoções abalavam-lhe o íntimo, enquanto numerosos soluços lhe morriam na garganta opressa.

Diante dele estava o inimigo implacável que procurara em vão, por consecutivos e longos anos de infelicidade. Mas, na sua introspecção, sabia entender, igualmente, as próprias culpas, recordando os excessos da sua severidade vaidosa. Também ele ali estava como um cadáver ambulante, no seio das sombras espessas. De que valeram as honrarias e o orgulho desenfreado? Todas as suas esperanças de ventura estavam mortas. Todos os seus sonhos aniquilados. Senhor de fortuna considerável, não viveria mais, no mundo, senão para carregar o esquife negro das ilusões despedaçadas. Todavia, seu íntimo se recusava ao perdão da hora extrema. Foi então que se lembrou de Jesus e da sua doutrina de amor e piedade pelos inimigos. O Mestre de Nazaré perdoara a todos os seus algozes e ensinara aos discípulos que o homem deve perdoar setenta vezes sete vezes. Recordou, igualmente, que, por Jesus, sua esposa imaculada morrera nas ignomínias do circo infamante; por Jesus voltara FIamínio do reino das sombras, para incliná-lo, um dia, ao perdão e à piedade...

Os ruídos de fora denunciavam que a hora derradeira de André estava próxima. O próprio Simão já caminhava vacilante e ensanguentado, depois do açoite, para o interior da prisão, epilogando o suplício.

Foi então que Públio Lentulus, abandonando todas as tradições de orgulho e vaidade, sentiu que no íntimo d'alma brotava uma fonte de linfa cristalina. Copiosas lágrimas desceram-lhe às faces rugosas e macilentas, das órbitas sem expressão, dos olhos mortos e, como se desejasse fitar o inimigo com os olhos espirituais, a fim de mostrar-lhe a sua comiseração, exclamou em voz firme:

- Estais perdoado...

Voltando imediatamente à sala contígua e sem esperar qualquer resposta, compreendeu que era chegada a última hora do inimigo.

Daí a minutos, o cadáver de André de Gioras era arrastado às Gemônias, para ser atirado ao Tibre silencioso.

O senador nada mais percebeu do restante das numerosas cerimônias no Templo de Júpiter.

O cortejo era agora iluminado pela claridade de mil fachos colocados pelos escravos em quarenta elefantes, por ordem de Tito, ao cair das primeiras sombras da noite, mas o senador, acabrunhado nos seus padecimentos morais, regressava em liteira ao palácio do Aventino, onde se fechou nos seus apartamentos particulares, alegando grande cansaço.

Tateando na sua noite, abraçou-se à cruz de Simeão, que lhe fora deixada pela crença da esposa, molhando-a com as lágrimas da sua desventura.

Em meditações profundas e dolorosas, pôde então compreender que Lívia vivera para Deus e ele para César, recebendo ambos compensações diversas na estrada do destino. E enquanto o jugo de Jesus fora suave e leve para sua mulher, seu altivo coração estava preso ao terrível jugo do mundo, sepultado nas suas dores irremediáveis, sem claridade e sem esperanças.